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Nota sobre o ensino de História Antiga no Brasil, em virtude de manifestações recentes



Em mesa redonda de debates realizada no final do mês de novembro, no âmbito do Encontro Estadual de História da ANPUH-PR, o Ensino de História Antiga e Medieval no Brasil foi objeto da pergunta de um dos participantes. Acreditávamos que o momento seria de grande oportunidade para abordar com a devida relevância um tema tão importante para o aprofundamento do debate sobre o Ensino de História em um mundo cada vez mais interconectado. No entanto, para nosso assombro, o que ocorreu foi uma retomada parcial e enviesada dos debates realizados quando da reforma da BNCC, com críticas ao “corporativismo” de antiquistas e medievalistas brasileiros e à “covardia” da Associação Nacional de História. Em virtude disso, nós, coordenadores do GTHA/ANPUH junto dos membros do NEMED/UFPR, acreditamos que seja oportuno reiterarmos elementos do debate, visando construir uma colaboração mais efetiva entre os/as especialistas do Ensino de História e da História Antiga brasileiros/as.


Alegou-se, na referida mesa, que a Antiguidade não interessaria às crianças brasileiras, que não geraria reconhecimento, que se limita à história das elites e à história da Europa, e que mesmo na Itália a Antiguidade não estava presente no currículo escolar, o que tornaria absurdo sua presença nos currículos brasileiros. Afora o fato desta última informação estar equivocada [1], tal argumento traz consigo dois pressupostos problemáticos. O primeiro, que a história das sociedades antigas “pertence” às nações europeias, e, mais, às elites europeias, o que a tornaria essencialmente eurocêntrica. O segundo, que o ensino de História no Brasil deveria se orientar pela História do Brasil.


Quanto ao primeiro argumento, deve-se lembrar, de antemão, que a História Antiga praticada no Brasil e no mundo não estuda apenas “sociedades europeias”, a menos que se considere que a “Europa” na Antiguidade abrangesse o norte da África, a Ásia ocidental, o planalto iraniano, o subcontinente indiano e mesmo a China. O Império Romano não se limitou à Itália ou à Europa, e suas consequências históricas não se limitam ao que, séculos depois, seriam os estados nacionais europeus. Além disso, a História Antiga produzida no Brasil, há décadas, enfatiza a agência dos mais diversos grupos subalternos (mulheres, escravos, provinciais, estrangeiros, camponeses), muito além da “lista de imperadores” ou da “arte grega” que, eventualmente, são repetidas por (profundamente desatualizados) livros didáticos de História.


Quanto ao segundo argumento - a História no Brasil deve ser a História do Brasil - deve-se ter em mente os riscos colocados à consciência histórica ao submetê-la à teleologia nacionalista, selecionando seus conteúdos em função de seu “fim”, ou seja, suas consequências para o estado nacional brasileiro. O primeiro risco é o de descontextualizar, no tempo e no espaço, a própria história do Brasil dos processos globais e de longa duração. O segundo risco é o de marginalizar as histórias que não resultam na formação do estado nacional brasileiro. O exemplo das histórias africanas que não se resumem ao tráfico atlântico de escravizados é um dentre muitos, e a História Antiga, após a profunda crítica do eurocentrismo no final do século XX (que orientou a constituição da ciência histórica como um todo, vale lembrar), está repleta deles: as interações entre diferentes processos de colonização no Mediterrâneo (como entre gregos e fenícios), o desenvolvimento paralelo e conectado de impérios mediterrânicos e próximo-orientais (como os impérios romano, arsácida e sassânida), a competição e convivência entre diferentes religiões e religiosidades (como entre o cristianismo, o judaísmo, o mitraísmo, o zoroastrismo e as múltiplas religiões cívicas e interpolíades), entre outros exemplos, apontam para a diversidade e multilinearidade das vias que compõem a experiência histórica humana.


Ademais, mesmo no caso de submeter a consciência à teleologia nacionalista, é preciso considerar que, se a formação do Brasil moderno se dá no contexto da expansão marítima europeia na direção da Ásia, esta história - a da conexão entre os dois extremos da Afroeurásia - começa, pelo menos, nos contatos do Império persa aquemênida e as sociedades indianas, fundamento do que, ao final do primeiro milênio antes da Era Comum, constituiria a célebre (e múltipla) rota da Seda, como mostrou ainda nos anos 1960 o prof. Eurípides Simões de Paula [2]. Ignorar a profundidade histórica do processo múltiplo que, eventualmente, produziria o Brasil, imaginando seu início na passagem da Idade Média para a Idade Moderna, é incorrer, novamente, no eurocentrismo.


Cabe lembrar, mais uma vez, que as críticas à primeira versão da BNCC não ocorreram porque quem a elaborou era de regiões ou universidades “centrais”. A questão é que um documento com tal grau de importância foi concebido e elaborado sem qualquer consulta à Associação Nacional de História - ANPUH, e ignorou, igualmente, outras associações importantes, espalhadas pelo território brasileiro, que poderiam colaborar com sua construção coletiva, tais como a Associação Brasileira de Estudos Medievais, a Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos, a Sociedade Brasileira de Teoria da História e História da Historiografia, e nem mesmo os diversos Grupos de Trabalho, os chamados GT’s que fazem parte da ANPUH, foram chamados para colaborar em tarefa tão relevante. Tal atitude resultou em um documento que não representava a totalidade da área da História, e suas fragilidades conceituais foram apontadas abertamente no campo científico, seja em notas, em comunicações ou em artigos científicos publicados em diferentes periódicos, por especialistas das mais diversas subáreas [3]. Tais manifestações, por sua vez, formam um conjunto que contribui para uma compreensão mais densa das questões envolvidas na elaboração da BNCC, e não pode ser ignorado sob o risco da reiteração de estereótipos ou equívocos - atitude inaceitável nos tempos negacionistas e anti-intelectuais em que vivemos.


A História Antiga, ao lado da História Medieval, da História Indígena, da História da África e da História da Ásia, pesquisadas atualmente por um corpo considerável de especialistas alocados em universidades em todas as regiões do Brasil, produzem, em português, conteúdos que demonstram a importância da História na compreensão de nosso lugar do mundo, que não existe em função do Brasil, mas no qual o Brasil é um agente fundamental. A História Antiga produzida e ensinada nas universidades brasileiras, hoje, não é a mesma do século XIX: é fundamental que pesquisadores/as do ensino de História no Brasil ultrapassem o conteúdo de História Antiga e Medieval publicados em livros didáticos e conheçam o que se produz, efetivamente, por pesquisadores e pesquisadoras da área. O próprio acúmulo crítico da História Antiga sobre a questão do eurocentrismo, inclusive as várias propostas de superação, contribui para o movimento mais geral de superação do eurocentrismo no ensino, evitando a adoção acrítica do nacionalismo metodológico. Neste esforço necessário de reflexão e renovação dos critérios para o ensino de História no Brasil, em contexto global e diante de questões sociais candentes, a História Antiga, seus praticantes e duas produções, não são inimigos, mas aliados.


Assinam:


Coordenação do Grupo de Trabalho de História Antiga/ANPUH

Alex Degan (UFSC)

Dominique Santos (FURB)

Fábio Augusto Morales (UFSC)


Núcleo de Estudos Mediterrânicos (UFPR)

Otávio Luis Vieira Pinto (UFPR)

Renan Frighetto (UFPR)


[1] Uma busca simples na internet pelo currículo italiano já é capaz de evidenciar o contrário do que foi afirmado, como podemos ver nas “Indicazioni nazionali per il curricolo della scuola dell'infanzia e del primo ciclo d'instruzione”, documento que regulamenta o ensino de História na Itália e que prevê o estudo da História "dalle grandi civiltà antiche alla colonizzazione greca e al processo di unificazione del Mediterraneo”, “dalla constituzione dell'Impero Romano alla diffusione del Cristianesimo” e também “dalla progressiva strutturazione dei territori alla nascita de una società ricca per i diversi apporti di genti e di culture nel Medioevo" (Itália, 2012, p. 42). [2] PAULA, E. S. Alguns aspectos das relações do Ocidente com o extremo Oriente durante a Antiguidade e a Idade Média. Revista de História, São Paulo, n. 21, v. 43, p. 3-14, 1960.

[3] Dentre os artigos produzidos por antiquistas e medievalistas brasileiros, destacam-se: SANTOS, D. O ensino de História Antiga no Brasil e o debate da BNCC. Outros Tempos, vol. 16, n. 28, p. 128 -145, 2019.; SOUZA, M. O ensino de História Antiga em debate: educação com pluralidade ou tradicionalismo acadêmico? História & Ensino, Londrina, v. 25, n.1, p. 571-588, jan./jun. 2019; SOUZA, M.Nativos americanos na BNCC: entre Pré-História e Antiguidade? Temporalidades, v. 11, n. 2, p. 666-687, 2019; MACHADO, J.; COLVERO, R.; PORTO, L. Os reveses do ensino de História Antiga no Brasil. RELACult, v. 5, p. 1-11, abr. 2019; LIMA, D. Uma história contestada: a História Medieval na Base Nacional Comum Curricular (2015-2017). Anos 90, Porto Alegre, v. 26, p. 1-21, 2019; LEITE, P. Ensino de História, reformas do ensino e percepções da Antiguidade: apontamentos a partir da atual conjuntura brasileira. Mare Nostrum, São Paulo, n. 8, p. 13-29, 2017; COELHO, A.; BELCHIOR, Y. A BNCC e a História Antiga: uma possível compreensão do passado pelo passado e do passado pelo presente. Mare Nostrum, São Paulo, n. 8, p. 62-78, 2017; TEIXEIRA, I.; PEREIRA, N. A Idade Média nos currículos escolares: as controvérsias nos debates sobre a BNCC. Diálogos, v. 20, n. 3, p. 16-29, 2016.

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