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Nota do GTHA contra a tentativa de destruição do Museu Nacional




O GTHA vem, por meio desta, manifestar seu repúdio contra o projeto do governo Jair Bolsonaro, articulado por representantes do movimento monarquista, para transformar o Museu Nacional (MN) em um centro turístico dedicado à família imperial luso-brasileira, conforme exposto em matéria veiculada pela Folha de São Paulo.

Herdeiro do Museu Real, fundado em 1818 para abrigar pesquisas e acervos no campo da Botânica, Biologia, Geologia e Numismática, o atual Museu Nacional investiu desde o século XIX em áreas ligadas ao estudo da Antiguidade humana, seja através da Antropologia, da Arqueologia, dos Estudos Clássicos ou da Egiptologia. Desde 1892, o MN passou a ocupar o Paço de São Cristóvão e ali se estruturou como um dos mais importantes e populares centros de pesquisas e equipamentos museológicos da América Latina. Em 1946, foi associado à UFRJ, que passou a investir e gerenciar as atividades de ensino, pesquisa e extensão ligadas ao museu.

Como museu e centro de pesquisas, o MN sempre valorizou a pluralidade da universalidade humana. Seu acervo de História Natural e Social da humanidade foi e é composto por elementos que valorizam a biodiversidade do planeta e a multiplicidade das trajetórias humanas desde os antepassados de nossa espécie. Os trabalhos de ponta da Antropologia e da Arqueologia construíram acervos que incluíam as inúmeras sociedades originárias do território do atual Brasil; povos andinos e mesoamericanos; sociedades nativas do Pacífico; culturas africanas e afro-brasileiras desde o século XVIII; além de peças da Antiguidade Greco-Romana e Egípcia.

Para nós, da área de História Antiga, o MN representava a possibilidade de ter no Brasil peças que iam desde a coleção grega, etrusca e italiota da imperatriz Teresa Cristina, constituída por elementos como o conjunto de afrescos de Pompeia, até a maior coleção egiptológica da América Latina, adquirida pelos imperadores D. Pedro I e D. Pedro II, que tinha como destaque o caixão e a múmia da cantora Sha-Amun-en-su. Todavia, para além dessas coleções, a multiplicidade do acervo do MN permitia a construção de identidades ligadas a uma Antiguidade Global, mais do que valorizar apenas o mítico passado pátrio ou apenas os seus laços com a narrativa civilizacional que originou o Ocidente.

Desde a tragédia do incêndio, em setembro de 2018, a equipe do MN e a UFRJ não pouparam esforços em um minucioso trabalho de resgate arqueológico das coleções. O uso do espaço para perpetuar a própria memória traumática do incêndio e de sua reconstrução é um objetivo fundamental para o novo Museu Nacional. A restauração da fachada original com o novo projeto interior é uma mensagem para a ciência brasileira, que deve resistir aos ataques, fortalecer sua tradição e encontrar novos caminhos.

Por esses e outros motivos, consideramos absurda a tentativa de transformar o novo Palácio da Quinta em um espaço de memória que glorifique a família real luso-brasileira. O Museu Nacional é um monumento à ciência e à humanidade. Portanto, não deve nem pode ser utilizado para a valorização de um passado da elite escravista que governou esse país. Esse patrimônio pode e deve ser utilizado para auxiliar na criação de uma memória que oriente a diversidade da experiência humana. Como museu mais popular do Rio de Janeiro, o novo MN tem a tarefa de reconstruir e ampliar seu acervo plural do passado humano e natural, de maneira a permitir que cada um dos seus visitantes possa se compreender como parte de uma experiência que transcende o Brasil e supera a narrativa eurocêntrica dos Estados-nacionais e do Ocidente. Para nós do GTHA, em especial, o Museu Nacional deve continuar sendo responsável pela celebração das Antiguidades americanas, africanas, mediterrânicas, próximo orientais, asiáticas e das demais.



Assinam esta carta:


Laboratórios:


ANIMALIA - Grupo de Estudos sobre as Relações entre Humanos e Animais na Antiguidade

​CPEP - Centro de Pesquisa e Estudos Plinianos - UNESP

G.LEIR/UNESP-Franca- Grupo do Laboratório de Estudos sobre o Império Romano- UNESP/Franca

HERÓDOTO - Grupo de Estudos e Pesquisas sobre a Antiguidade Clássica e suas Conexões Afro-asiáticas

LABEAM - Laboratório Blumenauense de Estudos Antigos e Medievais - FURB

LABECA - Laboratório de estudos sobre a cidade antiga - USP

LAOP - Laboratório do Antigo Oriente-Próximo (USP)

LARP - Laboratório de Arqueologia Romana Provincial - USP

LEAO - Laboratório de Estudos da Antiguidade Oriental - UFRGS

LEHAS - Laboratório de Estudos das Histórias Asiáticas - UFSC

LEPHAMA - Laboratório de Estudos e Pesquisas em História Antiga, Medieval e da Arte - UEMG-Campanha

LHIA - Laboratório de História Antiga - UFRJ

MITHRA - Laboratório de História Antiga Global - UFSC

Mnemosyne - Laboratório de História Antiga e Medieval - UEMA

NEAM - Núcleo de Estudos Antigos e Medievais - UNESP

NEREIDA - Núcleo de Estudos de Representações e Imagens da Antiguidade - UFF

TAPHOS - Grupo de Pesquisa em Práticas Mortuárias do Mediterrâneo Antigo

#Veredas_Digitais - Laboratório de Tecnologia e Humanidades - UNESP



Pesquisadores:


Abner Alexandre Nogueira - UNESP

Alex Degan - UFSC

Adriene Baron Tacla - UFF

Alexandre Carneiro Cerqueira Lima - UFF

Alexandre Santos de Moraes - UFF

Ana Livia Bomfim Vieira - UEMA

André Luís Belletini - U

Andrea Lúcia Dorini de Oliveira Carvalho Rossi - UNESP

Camila Condilo - UNB

Camila Diogo de Souza - TAPHOS/MAE/USP

Deivid Valério Gaia - UFRJ

Denis Renan Correa - UFRB

Dominique Santos - FURB

Edson Arantes Junior - UEG

Fábio Frizzo - UFTM

Fábio Morales - UFSC

Gilberto da Silva Francisco - UNIFESP

Glaydson José da Silva - UNIFESP

Ivana Lopes Teixeira - FASB

Katia Maria Paim Pozzer - LEAO/UFRGS

Joana Campos Clímaco- UFAM

Liliane Cristina Coelho - UNIANDRADE

Lolita Guimarães Guerra - FFP-UERJ

Luís Ernesto Barnabé - UENP

Marcelo Rede - USP

Marcia Severina Vasques - UFRN

Margarida Maria de Carvalho- UNESP-Franca

Maria Cristina Nicolau Kormikiari - LABECA/MAE/USP

Maria Isabel D’Agostino Fleming - LARP/MAE/USP

Priscilla Gontijo Leite - UFPB

Uiran Gebara da Silva - UFRPE

Vagner Carvalheiro Porto - LARP/MAE/USP

Ygor Klain Belchior - UEMG-Campanha



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